Campo digital e conectado: o que falta para chegarmos lá?

Por Bernardo de Castro, presidente da divisão de Agricultura da Hexagon.

08 junho 2021

Mais de 60% do crescimento agrícola nos últimos anos se deve à adoção de tecnologia. Com recursos como Inteligência Artificial, Big Data, Business Intelligence e Internet das Coisas (IoT) — só para citar alguns exemplos — temos cada vez mais ferramentas inovadoras à disposição de gestores e produtores, permitindo o alcance de resultados produtivos e redução de gastos.

No entanto, ainda há um longo caminho a ser percorrido para se chegar a um campo efetivamente digital, pelo menos no Brasil. Isso porque grande parte das tecnologias agrícolas dependem de uma boa conexão e, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), somente 41% da população rural possui acesso à internet. Algumas das principais barreiras para essa transformação digital são a falta de disponibilidade, a dificuldade de acesso em áreas extensas e afastadas e o alto custo dos serviços de internet.

Uma das razões para essa lacuna na área rural é o forte direcionamento das companhias telefônicas para os centros urbanos. Durante muitos anos, essas foram as áreas que concentraram a maioria das necessidades tecnológicas, que só chegaram ao campo posteriormente.

Foi na última década que presenciamos o verdadeiro crescimento exponencial da tecnologia nas fazendas — inclusive com a fabricação de máquinas agrícolas preparadas para essa conexão. Com isso, naturalmente, também cresceu a demanda pela conectividade, que aos poucos chamou a atenção das telefônicas. Dessa forma, só recentemente pudemos acompanhar um movimento efetivamente preocupado em levar a implantação de estações de internet para o campo.

O acesso à transformação digital

Outro ponto importante de destacar é a significativa diferença no acesso aos recursos existentes. Hoje, embora haja tecnologias com funcionalidades e valores acessíveis para todos os tipos e tamanhos de operações, percebemos que, enquanto empresas de grande porte conseguem investir em alternativas para conexão, pequenos produtores permanecem sem internet em suas áreas rurais e, portanto, sem poder contar com toda a inovação disponível.

Esse é um problema que precisa ser superado para massificar o uso de tecnologias de informação no campo. Atualmente, 84% dos produtores e prestadores de serviços rurais fazem uso de pelo menos uma tecnologia digital em benefício da produção agrícola, conforme pesquisa realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ou seja, não falta interesse pela tecnologia, mas sim acesso — sem conexão, a adoção de diversos recursos mais avançados torna-se inviável.

É claro que existem algumas alternativas que tentam contornar o problema. Aqui na divisão de Agricultura da Hexagon, por exemplo, os produtos oferecem diversas opções de conectividade, como entre displays de uma máquina para outra e entre displays e dispositivos móveis, bem como integração com sistemas de transmissão mais sofisticados, como os satelitais. A combinação destas tecnologias colabora para que os dados sejam coletados e cheguem aos tomadores de decisão e gestores das propriedades, ainda que com limitações.

Porém, maiores níveis de conectividade no campo são necessários para promover a transformação digital de forma ágil.

O campo rumo a um futuro mais eficiente

Hoje, já existem inúmeros recursos tecnológicos, como hardwares, softwares e sensores, que permitem acompanhar os processos no campo e a saúde das plantações, avaliar as condições climáticas e ambientais e monitorar equipamentos agrícolas. No entanto, sem cobertura de internet, perde-se a oportunidade de aproveitar essas ferramentas de agricultura de precisão em sua totalidade, já que não há como transmitir dados e corrigir problemas em tempo real. Perde-se assim, também, os benefícios decorrentes dela, como o aumento da produtividade e a redução de custos.

Por isso, é urgentemente necessário lançar o olhar sobre a conectividade das zonas rurais, estudando os pontos que prejudicam a chegada de sinal, pensando em maneiras de combatê-los e desenvolvendo soluções mais eficazes.

Além disso, não podemos esquecer de que, para que a conexão efetivamente se concretize no campo, é necessário investir no acesso à informação sobre agricultura digital para os pequenos produtores que ainda não conhecem seus benefícios. Integrar essa população e reduzir o atraso e as desigualdades tecnológicas é um desafio que precisamos vencer. Afinal, se hoje já somos uma potência no agronegócio, com conexão para todos, podemos nos tornar a maior referência mundial do setor.

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